de Tiago Pereira e Sofia Ponte
“Os primeiros passos de uma criança são experimentais e por isso começam algo absolutamente novo.” Ernesto de Sousa
João dos Santos (1913-1987), destacado médico psiquiatra, que numa acção pioneira em Portugal, alargou as questões da prevenção da saúde mental infantil a várias áreas da actividade humana como a medicina, a justiça, a educação e a arte.
A partir do conceito de photomaton em que cada retrato é único e relativo a um instante, este filme reúne visões e vivências singulares de colaboradores e amigos próximos de João dos Santos, de forma a tornar o seu pensamento acessível e menos complexo a um público para além da comunidade científica da saúde mental e da educação.
O filme explora aspectos da vida de João dos Santos que contribuem para uma reflexão sobre a contemporaneidade, já que uma das maiores heranças para a sociedade portuguesa, refere-se à sua enorme faculdade em tornar temas intricados em histórias comunicáveis e compreensíveis. Seguindo a natureza dos conhecidos programas de rádio da autoria de João Sousa Monteiro com João dos Santos, é a partir do diálogo entre memórias que o filme desmonta as ideias chave sobre o desenvolvimento da criança e o seu lugar na sociedade, interesses constantes na vida de João dos Santos.
Cada recordação, reflexão e história forma um retrato de uma época e de uma actividade peregrina. Estes retratos estão documentados a partir do som dos programas de rádio e das conversas cruzadas dos vários entrevistados de modo a revelar a visão holística de João dos Santos, bem como modelos de investigação experimentais. Este era capaz de estabelecer associações de ideias de natureza diversas e de articular no seu trabalho aspectos menos óbvios da sua experiência, transformando-as em práticas de saúde mental e de educação com resultados bastante positivos.
Este documentário explora a linguagem visual de forma a criar uma documentação que também é um produto artístico. Este processo de trabalho permite tornar visível a documentação realizada na época, como fotografias e filmes de arquivo que dão a conhecer facetas de João dos Santos em lazer, em viagem e em trabalho. Permite também contextualizar Lisboa e Portugal em diferentes épocas, através das muitas relações de amizade que mantinha com colegas, personalidades da arte, da educação, da filosofia e psiquiatria, e do seu interesse pelo mundo à sua volta.